Se você ainda avalia campanha pelo último clique, está medindo o momento em que a pessoa já tinha decidido. Não o momento em que ela decidiu.
A jornada de compra parou de ser linear há muito tempo. O Google deu nome ao que acontece no meio dela: messy middle, o meio bagunçado.
O que é o messy middle
É o espaço entre o primeiro contato com a marca e a decisão final. E ele funciona como um vaivém entre dois modos:
- Exploração: a pessoa amplia as opções, descobre marcas, lê sobre o problema
- Avaliação: a pessoa reduz as opções, compara, busca prova
Ela alterna entre os dois quantas vezes precisar. Pesquisa no Google, entra num site, sai, vê um anúncio no Instagram, pergunta para um colega no WhatsApp, assiste a um vídeo no YouTube, volta para o site. E só depois converte.
Nenhum modelo de funil descreve isso, porque o funil pressupõe que ninguém volta.
Por que o último clique não dá conta
O último clique responde a uma pergunta: qual foi o último anúncio antes da compra. Essa é uma pergunta de registro, não de estratégia.
O último clique não mede o que convenceu. Mede o que estava por perto na hora em que a pessoa já estava convencida.
A consequência prática é previsível: os canais de decisão, como marca, remarketing quente e campanhas de fundo, recebem crédito demais, e canais de descoberta recebem crédito de menos. Como a verba segue o crédito, você corta progressivamente o que alimenta o topo e concentra no que colhe o fundo.
Funciona por alguns meses. Depois o fundo seca, porque ninguém estava enchendo o topo.
O que muda na alocação
Aceitar o messy middle não significa abandonar mensuração. Significa mudar três coisas concretas.
Presença no meio, não só na ponta. Conteúdo de comparação, cases, vídeo, prova social. É o material que a pessoa consome no modo avaliação, e que raramente converte no clique, mas decide quem entra na lista curta.
Parar de otimizar tudo para a conversão final. Se toda campanha é avaliada pela venda direta, todas convergem para o fundo e você fica com um funil sem entrada.
Trocar o modelo de atribuição pela leitura combinada. Trocar last click por data-driven ajuda, mas não resolve. Vale entender por que trocar o modelo de atribuição não conserta o ROI sozinho.
Como medir sem fingir precisão
Existe um método que responde exatamente a pergunta que a atribuição não responde: quanto cada canal move o resultado, inclusive para quem nunca clicou. É o Marketing Mix Modeling, e ele não depende de cookie nem de janela de atribuição.
A tentação é buscar o modelo que finalmente diga a verdade. Ele não existe, e trocar de modelo apenas desloca o problema: vale ver o que medir quando o modelo de atribuição do GA4 não responde a pergunta real. O que existe são três leituras que a gente combina para cercar a resposta:
- Conversões assistidas mostram quais canais aparecem no caminho sem fechar, e o modelo de atribuição que você escolhe no GA4 decide quanto delas aparece. Imperfeito, mas revela o que o último clique apaga.
- Teste de incrementalidade responde por causalidade o que a atribuição só estima por correlação. É o que o Conversion Lift mede: quanto da venda ia acontecer sem anúncio nenhum.
- Tempo entre primeiro toque e conversão mede o tamanho real da decisão. Se a média é de sete a doze dias, avaliar campanha em janela de sete dias corta metade da jornada de dentro do relatório, e é pelo mesmo motivo que a análise por safra de leads corrige o CAC do mês.
Quando o último clique basta
Existe um caso em que toda essa discussão é desnecessária: compra por impulso, ticket baixo, decisão na mesma sessão.
Se a pessoa vê, clica e compra em cinco minutos, não há meio bagunçado para descrever: o primeiro e o último toque são o mesmo toque. Nesses casos, o último clique é uma aproximação honesta da realidade e adicionar modelo só adiciona dúvida.
Quanto mais longo o ciclo e maior o ticket, mais o último clique deixa de ser uma simplificação útil e passa a ser uma distorção. Em B2B com múltiplos decisores, ele descreve o último passo de uma decisão que foi tomada semanas antes, em outro lugar. E você provavelmente pagou para essa decisão acontecer sem receber crédito por isso.
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